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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

ENSAIO LG21 * LITERACIA GLOCAL * SEGUNDA PARTE

 

“A Identidade é o nome que damos à saída da incerteza que procuramos.”

Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada – Ensaio sobre a Moral Pós-Moderna,

Relógio D´Água, Março de 2007

 

            A perestroika chegou com Gorbatchov, o Muro de Berlim sucumbiu e as Torres do World Trade Center, em terras cosmopolitas do Tio Sam, esvaíram-se em escombros. Três confirmações do óbvio inerente à complexidade e à incerteza contemporâneas : a progressiva dessacralização da realidade ; a falaciosa autonomia e atomização do Sujeito, despersonalizado e despojado da sua Humanidade ; bem como o destronar, cada vez mais evidente, da ideia de abertura intelectual, na esteira do movimento iluminista de oitocentos, superiormente denunciado por Karl Popper. Em boa verdade, o hodierno pecado original da actualidade passa, quase em exclusivo, pelo querer, compulsivamente, fazer tábua rasa do legado deixado pelos nossos antepassados, como se tivéssemos sido nós próprios a auto-criar-nos, dispensando toda a espécie de progenitores.

 

Por mais vozes que tenham tentado fazer-se ouvir, com George Bernanos ou Emanuel Mounier à cabeça, a surda teimosia, já de si cega por acreditar ver demais, acabou por vingar, isto em nome de uma pretensa concepção de liberdade, hoje, nas ruas da amargura do virtual. Documentos de referência como sejam : “Mirari vos”, de 1832 ; “Singulari nos”, de 1834; “Quanta cura”, de 1864 ; ou, mais recentemente, no âmbito do Concílio Vaticano II, apelando para a centralidade da educação para os valores, a Declaração Apostólica “Gravissimum Educationis Momentum”. Com toda a certeza, meritórias e muito sérias tentativas de diálogo harmonioso entre a razão e a fé, – na esteira de Santo Agostinho, de Santo Anselmo e do Aquinate, isto só para nos mantermos fiéis às trindades tão caídas em desuso – acabaram por ser, profundamente, ignorados e, pior do que isso, considerados autênticos entraves ao processo de libertação do homem, até à data, submergido em rituais desrespeitadoras da natureza e felicidade humanas.

 

Corria o ano de 1967, quando um eminente filósofo e jurista alemão, de seu nome Ernst Wolfgang Böckenförde, decide, corajosamente, juntar-se à prerrogativa de negação das ideologias messiânicas em voga, precisamente, um ano antes do movimento estudantil que viria a fazer furor nos mais diversos meios académicos mundiais, Maio de 1968, tendo declarado, alto e bom tom : o Estado liberal secularizado vive de pressupostos que não pode garantir”.  Todavia, o eco deste grito, infundado para o ar respirado da moda vigente, pouco ou nada viria a alterar, na essência da mundaneidade caleidoscópica mescladora das mais variadas vivências. Ainda recentemente, vozes de discordância manifesta com a trajectória política em curso, nomeadamente, por parte de Rocco Buttiglione, junto do Parlamento Europeu, - imagine-se - em defesa das raízes cristãs na base do processo de construção europeia, mereceram pesada censura pelas mãos dos excelsos responsáveis. Por incrível que possa parecer, os principais líderes dos destinos da União Europeia fizeram, literalmente, letra morta de documentos doutrinários de primeira linha, designadamente, a Exortação Pós-Sinodal  “Ecclesia in Europa” permitido pela pena acutilante do saudoso Papa João Paulo II.

 

Seja como for, uma réstia de esperança mantém-se viva no panorama actual : efectivamente, podemos afirmá-lo com a frontalidade que tão bem nos caracteriza, muitos são, já, os intelectuais europeus que discordam com a linha política que tem sido traçada, particularmente, o insuspeito Jürgen Habermas, no campo do racionalismo pós-metafísico, que defende uma “secularização não aniquiladora” e afirma, com todas as letras e mais alguma que houvesse, que a neutralidade ideológica do Estado, garante de idênticas liberdades éticas a todos os cidadãos, é incompatível com a generalização política de uma mundividência laica”.

 

Como não querer aceitar a evidência : a União Europeia, goste-se ou não, emerge das raízes cristãs da Velha Europa. Mais uma sustentada confirmação das nossas suspeitas : o conceito personalista, latente na história do mundo ocidental, deseja-se, por estes dias e mais do em nenhuma outra época, amordaçado e vilipendiado em nome do novo monarca, o do Sujeito-Atomizado ou Indivíduo. Numa nova era em que as distâncias se vêem encurtadas, é bem provável que as noções de Tempo e de Eternidade nos estejam a exigir igual tratamento existencial : tudo se passa como se tudo se resumisse a um simples e efémero instante, nada mais há além dessa ínfima migalha temporal. A dimensão histórica é, em definitivo, abolida e, com isso, a Humanidade vê-se de braços dados com a mais incrédula das certezas : a incerteza travestida de virtual.

 

Se viver é aprender a amar, estamos em crer, o Amor e a Vida estão condenadas a uma radical relação construtiva e, dialecticamente, dialógica.

Perguntamos, tão somente, se é isto que é ser Homem, no desfraldar do século XXI ?

(SURREAL CONTINUA ...)

sinto-me: LITERALMENTE COM SENTIDO DE...
publicado por $urrealHumanity às 19:58
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